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Do berço à sepultura: a atuação de grupos de extermínio e as vidas jovens negras descartáveis. 

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Passava um pouco das dez da manhã, quando o cortejo chegou ao cemitério destinado há pobres e negros da cidade. Embora estranho, importa dizer que toda cidade de médio e grande porte no Brasil tem um cemitério onde os corpos mais pobres são destinados; aqueles corpos, em sua maioria negros, que não possuem contas bancárias abastadas para um enterro com pompas, cujos familiares recorrem ao benefício assistencial do auxílio funeral, concedido pelos governos municipais. 

 

Uma pequena oração é iniciada; o caixão com o corpo do menino negro acabara de chegar. Ele, entre tantos outros corpos negros, havia sido morto em uma suposta emboscada, organizada por um grupo já conhecido na cidade “fictícia” desta escrita, mas não tão fictícia quanto gostaríamos. Grupo formado por conhecidos “homens de bem” – comerciantes, vigilantes patrimoniais, alguns funcionários de poderes públicos, alguns meros desconhecidos. Todos em busca de uma “limpeza social e racial”.

 

Uma procissão já bem conhecida se reveza próximo ao caixão – mulheres negras, pobres, marcadas pela vida; meninos negros, pobres, marcados pela invisibilidade das políticas públicas, poucos homens adultos. Pergunto-me se os homens não habitam o lugar que a sina insiste em chamar de pobreza. Será que não vivem até a vida adulta?! São também abatidos pelos atiradores da madrugada?! 

 

A problemática aqui exposta, perpassa os assassinatos e constantes violações de direitos praticados pelos chamados grupos de extermínio no Brasil. Quais as construções históricas que fazem emergir esses grupos no Brasil?! O que ainda resiste nesses corpos que são marcados pelos tiros de armas de uso exclusivo das forças armadas? 

 

O tema (in) segurança pública no Brasil vem tendo destaque nacional e internacional, em razão dos altos índices de mortes violentas levantados nos últimos anos. Porém, estes números não refletem histórias, memórias, realidades contadas por mães e familiares de atingidos pela violência, especialmente aquela causada pelos chamados grupos de extermínio, que atuam em várias cidades do Brasil. Em sua maioria mulheres, esses familiares rompem com o lugar de vítimas, assim como com o lugar de perigosos, lugar que lhes é imputado pelo simples fato de pertencerem há um território criminalizado pelas estatísticas de violência e pela cor de sua pele.

 

Narrativas que apontam para o cume de um iceberg que se instalou de forma mais preeminente no Brasil nas décadas de sessenta e setenta, mas que avançou pela história atual do país – os grupos de extermínio. Através de pesquisa documental, mas principalmente da coleta de dados junto a familiares, observamos a existência de uma rede de relações obscuras entre comerciantes, vigilantes particulares, com a participação ativa do braço armado do Estado – rede que envolve o tráfico de entorpecentes e de armas, a encomenda de mortes, mas principalmente crimes ligados ao chamado crime organizado. Desconfiamos, porém, de uma estreita ligação entre o Estado e o que se chama por “crime organizado”.

 

Não obstante, essas redes parecem não ser só uma realidade atual. Um dos principais expoentes destes grupos foi o Esquadrão da Morte, que desde 1958 já havia se organizado no Rio de Janeiro. Outro exemplo é o da Scuderie Detetive Le Cocq, que era apresentada como uma entidade civil sem fins lucrativos, criada em 1984, tendo como finalidade “servir a coletividade”. Em face de diversas denúncias, foi extinta em 1995, sendo acusada formalmente de ser uma organização que se destinava ao assassinato de supostos infratores, especialmente em cidades do Espirito Santo e Rio de Janeiro, e que, ao fim, sob a capa de impunidade, praticava extorsões, assassinatos, compras de sentenças, entre tantos outros crimes.

 

Os mais desavisados podem afirmar que esses grupos foram supostamente desmantelados, mas pesquisas recentes feitas com familiares de atingidos pela violência nos apontam que eles apenas tomaram novas formas, novos contornos, e que sobrevivem e ganham força nos dias atuais, sejam no formato de milícias armadas, sejam como grupos de “justiceiros”, para a proteção das “famílias de bem”, ou simplesmente no velho modelo de “limpeza”, disfarçando-se dentro das próprias redes criminosas de comércio de armas e substâncias psicoativas. 

 

O que têm em comum com os grupos do passado?! Suas vítimas, em sua maioria absoluta, são negros e pobres. Na perspectiva eugenista de controle, dominação e extermínio dos corpos, serão os corpos negros também o alvo desses grupos, uma vez que são os corpos ditos perigosos, aqueles que mostravam-se como ameaça à sociedade. Praticamente do berço à sepultura, são os jovens negros de periferia que estarão entre as estatísticas dos casos nunca solucionados e atribuídos aos grupos de extermínio e milícias. 

 

Vidas, que no limiar, são passíveis de eliminação – vidas precárias, como nos afirma Judith Butler; corpos que, em última instância de desumanização, estarão lançados à morte, cujas famílias são impossibilitadas de viver o luto, uma vez que seus entes são prontamente transformados em culpados pelas próprias mortes – infratores, bandidos, vidas perdidas que não merecem ser lamentadas, identificadas como “menos humanas”. Corpos sujeitos há uma política de morte, que na verdade se coloca enquanto regra para o funcionamento do Estado, que permitirá o extermínio desses corpos. Uma política que elege quem pode e deve morrer. 

Por: Luizane Guedes Mateus 

Referências Bibliográficas: 

 

1 – BUTLER, Judith. Vida precária: os poderes do luto e da violência. Trad. Andreas Lieber. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

 

2 – COIMBRA, Cecília. Operação Rio – O mito das classes perigosas: um estudo sobre a violência urbana, a mídia impressa e os discursos de segurança pública. Niterói: Oficina do Autor, 2001.

 

3 – GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Ed. 34, 2006.

 

4 – MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.

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