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Dialogos conjunturais da Nossa Cultura Hip Hop

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A muito estamos ouvindo sobre a estagnação, afrouxamento, comercialização e demais nomenclaturas em relação à Cultura Hip Hop, nossa militância (o pouco que ainda não foi cooptado pelo grande capital) não esta em pé de guerra com seus padrinhos financiadores, pelo simples fato de não ter tais padrinhos.

Estamos a vinte e tantos anos na base de articulação e manutenção desta, que se faz a única forma de enfrentamento às mazelas impostas no dia a dia pelo Estado e seu sistema, muitos (as) dos nossos estão sucumbindo por conta da desarticulação promovida pelo cifrão e suas benesses.

A pouco fizemos um longo dialogo com o companheiro DJ, MC e Educador popular Dan Dan, o mesmo nos traz em sua fala uma analise de conjuntura, a partir da década de 90, que exemplifica a situação atual da nossa grande referencia a Casa da Cultura Hip Hop de Diadema – o Centro Cultural Canhema, para alguns, em sua fala nos sentimos instigados a reavaliar muitas questões, entre elas, a nossa relação enquanto linhas de frente na manutenção da propagação dos princípios da Cultura Hip Hop.

Temos uma luta que infelizmente começa a ser travada de dentro para fora, primeiro com os nossos iguais, com quem deveria engrossar as linhas de frente no enfrentamento ao verdadeiro inimigo. O debate de ideias, a desconcordancia, o embate, o convencimento, é de estrema importância para o crescimento e a necessária práxis revolucionaria, porem não podemos nos deixar levar por estratégias antigas, mas eficazes, uma delas a de “fraguimentar para enfraquecer”.

Estamos iniciando a caminhada com a renovação dos postos políticos e nesse momento que se configuram as frentes de trabalho para dar cara aos mandatos e suas equipes e devemos ter muita calma nessa hora, após as eleições e alguns acontecimentos em varias cidades, parece que não existe mais dúvida sobre como age o governo em todos os segmentos da sociedade.

O governo, aliado à industria tenta dividir para enfraquecer, tanto movimentos de oposição como segmentos da sociedade civil organizada. Na Cultura Hip Hop a tentativa de dividir o segmento é clara, com a infiltração de pessoas e apoio a uma série de pequenos eventos, enquanto, por outro lado, ocorre a tentativa de esvaziar e prejudicar indiretamente o maior movimento social que existe, produzido por pessoas não ligadas ao governo. Muitos vão dizer que o Império Romano usou esta estratégia por algum tempo. Nunca é tarde lembrar, porém, que o império esfacelou-se de forma trágica, invadido e saqueado por bárbaros e nós, a militância somos estes bárbaros.

Não há mais como escamotear. A era dos conceitos clássicos que banhavam a cultura e a política estão cedendo lugar ao ciclo da personalização, cujos contornos apontam para a prevalência dos indivíduos sobre as ideias, o predomínio da forma sobre o conteúdo. As ideologias, nesse início de segunda década do século XXI, bifurcam-se na encruzilhada dos desafios da Cultura hip Hop às voltas com profunda crise. 

Aí, a base de inclusão desloca seu eixo piscando para a de exclusão, atenuando as cores do seu antigo discurso. Já não eleva ao alto do mastro a bandeira da “propriedade coletiva dos meios de produção”. O moderado líder finca pé na justiça social – escopo central dos partidos da Cultura Hip Hop – mas deixa ver a inclinação para a Terceira Via, mescla de elementos do socialismo e do liberalismo, pois no velho discurso, podia-se ler um acervo composto por conceitos como liberdade, igualdade, democracia, capitalismo, socialismo. Hoje, militantes da antiga escola, periféricas, falando aqui da Cultura Hip Hop, usam esses substantivos sem muita convicção.

Recorde-se que a Cultura Hip Hop começou a redesenhar seu ideário após o acesso a bens tecnológicos e renda gerada pelo governo, muito bom, porem, muitos foram juntar os tijolos fragmentados da Cultura Hip Hop à argamassa do “faismirir”.

Sob a nova composição, a Cultura Hip Hop abriu espaço para novas formas de contestação e novos pólos de representação, hoje presentes na miríade de grupos, entidades e organizações culturais tomam corpo partidário do passado, ganharam nova roupagem, na esteira do arrefecimento do antagonismo de classes e do enfraquecimento dos particularismos ideológicos.

O desvanecimento dos mecanismos tradicionais da Cultura hip Hop – partidos, parlamentos, ideologias, bases – e a criação de um novo triângulo do poder, juntando esfera cultural como na política, burocracia governamental e círculos de negócios, fizeram emergir a era do EU, povoada por pelegos ressentidos e mandatários de todos os espectros, cada qual portando as vestimentas fosforescentes do Estado-Espetáculo.

Assim, o progressivo declínio das estruturas clássicas da Cultura Hip Hop propiciou, em contraponto, um fluxo ascendente de personagens que passaram a ter visibilidade na onda midiática. A forma tornou-se mais importante que o conteúdo. São um exemplo nossas musicas RaP e seus MC’s, nossos Graffiti’s e seus artistas plásticos, nossos DJs e seus pancadões e MPB’s, nossos B Boys e B-Girl’s, vertentes cheias de cosmética e centradas em fulanos (as), sicranos (as) e beltranos (as).

Pela importância da Cultura Hip Hop na textura democrática, é razoável supor que o redesenho do discurso que ali se pratica serve para espelhar o atual estado da mesma na rua. A começar pela desconstrução que a indústria promoveu em sua identidade, a postura tinha lógica em 1987, quando se elege com o slogan da ruptura. Mas hoje esse ideário serve a quem?

O que podemos extrair como lição para a nossa atual realidade? 

Os recados são claros. Vejamos.

Ponto um: não há mais sentido brandir bordões e refrãos insuflando luta de classes, pobres contra ricos, socialismo contra liberalismo se uma grande parcela de nossas referencias continua a erguer bandeiras rotas, abraçando quem da mais moedas?

Ponto dois: atacar as estruturas intermediárias da Cultura Hip Hop é desconstruir o próprio edifício da sua soberania e sobrevivência plena. Desvios cometidos por pessoas físicas não podem ser confundidos com a importância das instituições (por exemplo; a Casa da Cultura Hip Hop de Diadema). 

No entanto, viceja por estas plagas uma peroração que defende o controle da mídia, a revelar a simpatia de grupos pelo Estado autoritário.

Ponto três: o combate às elites políticas por parte de quem as integra soa demagógico. Personagens que escalaram os degraus da pirâmide para chegar ao topo devem saber que também eles integram o Olimpo elitista.

Ponto quatro: trata-se de um risco ancorar a estabilidade de uma Cultura Hip Hop sobre uma base protecionista, à deriva que uma atitude nessa direção proporciona, apesar de gerar conforto no curto prazo, ameaça comprometer os conceitos fundamentais.

Decisões dessa ordem têm o condão de conferir aos militantes uma imagem situada na banda esquerda do arco ideológico. Mas a esquerda tem sofrido, e muito, para debelar o caos.

Cabe a reflexão, me ajudem, este é o grito ensurdecedor que a Cultura Hip Hop esta dando, porem só que ouve esta escutando e só que vê esta enxergando. 

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Saudações!!!

Bob Controversista, me pediu para ler o texto, demorei, mas li e acho que conseguiu abordar de forma cirúrgica pontos fundamentais de nossa atual “crise” ideológica, comportamental e de objetivos. Hip Hop X Poder Público, Hip Hop X Financiamento, Hip Hop X Independência, entre personalismos heroicos que virão nos salvar e ação independente coletiva, colaborativa e autônoma qual o caminho mais curto? Ele mantêm conceitos fundamentais? Quais os conceitos fundamentais da nossa Cultura? Enfim, questões são muitas, é uma crise e até quando seremos cegos, surdos e mudos, em uma cultura que gritar faz parte de sua essência?

Parabéns pela análise e texto, sigamos conversando!
Paz e até mais…
Renato de Souza
Produto Paralelo

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