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Autodeterminação do povo negro resgatada de nossas raízes

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Entrevista com Eric Jackson, do Black Yield Institute, Baltimore

por Edmund Ruge

| EUA |

traduzido por Jackson Schmiedek

Pode surpreender a algumas de nossas leitoras e leitores  que questões de acesso urbano alimentar nos Estados Unidos são muito anteriores ao início da Covid-19. Bairros inteiros, muitas vezes chamados de “desertos alimentares”, ficam desprovidos de supermercados  e hortifrútis embora não falhem em prover opções de fast-food por quilômetros a fio. Nessas áreas, a falta de acesso a alimentos frescos e saudáveis ​​teve um efeito previsível nos indicadores de saúde, impactando desproporcionalmente as comunidades negras.

Embora a pesquisa em torno do fenômeno do “deserto alimentar” tenha trazido utilidade para a questão, o próprio termo aborda apenas problemas em nível superficial. Eric Jackson, fundador do Black Yield Institute de Baltimore, Maryland, prefere o termo “apartheid alimentar”, um processo histórico intencional que separou as comunidades negras de seus laços com a terra, cultura e preparação de alimentos.

As questões mais profundas por trás da insegurança alimentar exigem, portanto, soluções holísticas. Para Jackson, significa autodeterminação. Nascido e criado no bairro Cherry Hill, de Baltimore (uma área a que se refere por “poder negro personificado, sem mesmo dizer”), o jovem de 34 anos se dedicou a essa missão, desenvolvendo a apropriação para a população negra nas instituições, preparando as comunidades para liderar seus próprios futuros e reivindicando práticas diaspóricas pan-africanas.

Jackson teve tempo para falar com  Revista Periferias no início de abril. A entrevista final, editada para fins de publicação, ilustra um amplo entendimento da saúde pública e uma clara visão para o futuro da soberania alimentar da população negra.

 Edmund Ruge: Podemos entrar no tópico da desigualdade estrutural, um pouco da história de Baltimore, talvez a questão de apropriação da terra, a situação atual e trajetórias das comunidades de Baltimore, quais políticas e atores estão se mobilizando? Se você pudesse pintar um quadro para alguém que nunca ouviu falar de Baltimore, como seria? 

Eric Jackson: Baltimore é uma cidade portuária em Maryland. Eu contextualizo dessa maneira como uma cidade portuária, porque fala da natureza do povo negro e de seu papel nisso. O interessante é que Baltimore como cidade, e Maryland como estado, não aparecem nas conversas sobre o Sul. Mas Maryland é, tecnicamente, o Sul. E há um ponto particular na Linha Mason-Dixon, que fica em Maryland, ao norte de Baltimore, que é o ponto de divisão entre o Norte e o Sul, e se insere no contexto mais amplo da história dos Estados Unidos da América. 

E nessa divisão do trabalho livre forçado dos povos africanos nesta parte do mundo, estamos bem no meio disso. E Baltimore, tecnicamente, não era agrária o suficiente no sentido de que escravizados africanos, e mesmo africanos livres, contribuíssem assim para essa economia. As pessoas, sobretudo, trabalhavam em padarias, em estaleiros e instalações de canhões.

A presença africana em Baltimore, historicamente é, assim como em muitos lugares nos Estados Unidos, começo da servidão. Então, quando falamos sobre racismo estrutural, não podemos ignorar a história e a trajetória das pessoas dessa linhagem. 

Enquanto falamos sobre o povo negro e a comida em Baltimore,  atualmente uma Cidade Negra, é esse o contexto. Baltimore, por ser uma cidade portuária e por estar aberta e disponível para diferentes pessoas, mas ainda dentro do contexto racista dos Estados Unidos da América, foi historicamente uma cidade de brancos. Uma cidade de gente branca, de colarinho azul principalmente, construída nas fábricas do período industrial. É uma das capitais de aço dos Estados Unidos, juntamente com Pittsburgh, Detroit e outras.

Mas você tem, com o tempo, essa continuação da divisão do trabalho e da racialização do trabalho que construiu a Baltimore que conhecemos hoje, ligada e conectada à política de habitação, uso da terra e outros aspectos de nossas vidas sociais e políticas. E assim você tem uma cidade que ainda é amplamente segregada, por ter sido projetada dessa maneira: segregada pelo trabalho, segregada pela classe e fortemente segregada pela raça. Políticas como redlining ajudaram a criar e consolidar o local onde as pessoas morariam, quais códigos postais seriam destinados às pessoas pardas ou negras.”Baltimore é uma cidade ainda amplamente segregada, por ter sido projetada dessa maneira: segregada pelo trabalho, segregada pela classe e fortemente segregada pela raça”

Edmund Ruge: Como você explicaria a prática de redlining para algúem que nunca ouviu falar disso antes? 

Eric Jackson: Redlining era, literalmente, uma prática política não oficial. E quando digo política, pode não ter sido usada explicitamente por funcionários públicos, mas eles certamente a conheciam. Era uma ferramenta política que literalmente usava um marcador vermelho para criar linhas que designavam e identificavam áreas onde os negros podiam ou não viver, essencialmente. Foi amplamente utilizada pelo setor imobiliário para determinar quais áreas seriam para negros ou não. Não apenas pelo setor imobiliário mas, também, pelo setor bancário, a fim de demarcar onde as pessoas viviam. E, curiosamente, algumas áreas semelhantes que foram demarcadas entre as décadas de 1930 e 1960 na cidade de Baltimore e em outros locais são os mesmos lugares onde as pessoas estão hoje vivenciando o apartheid alimentar.

E não apenas o apartheid alimentar, pois são as áreas onde há mais gente negra, são as áreas mais empobrecidas, são as áreas em que as ruas são mais esburacadas, um verdadeiro sacrilégio estarem cheias de buracos. 

O redlining foi, essencialmente uma ferramenta utilizada, histórica e contemporaneamente, para antecipar a expectativa de vida e disparidades na saúde ao longo do tempo.

“Curiosamente, algumas áreas semelhantes que foram demarcadas entre as décadas de 1930 e 1960 na cidade de Baltimore e em outros locais são os mesmos lugares onde as pessoas estão hoje vivenciando o apartheid alimentar”

Edmund Ruge: Para esclarecer, estamos falando de uma prática intencional de políticos brancos, por meio do setor imobiliário, bancário.

Eric Jackson: Com certeza. Pela classe bancária, pela classe comercial. Foi muito intencional e teve muito a ver com  o que não se fala com frequência, de que se tratava ser de algo para manter a pureza do branco. Basicamente, o pensamento era: “se os deixarmos morar conosco, nos tornaremos impuros”. Portanto, se alguém se mudasse para um desses bairros, uma das práticas dentro do redlining é que, se uma pessoa negra realmente tem um bom crédito e de alguma forma encontrou um banco que estava disposto a emprestar dinheiro, ou por esse pessoa ser médica, advogada ou pessoa negra de classe alta, era quase como aquele ditado: “lá se vai o bairro”. E as pessoas realmente se mudariam de lá.

E o interessante é que houve alguns organizadores que, intencionalmente, fizeram esse tipo de coisa para “escurecer” as comunidades que eram brancas, por assim dizer. E essa era uma prática que, embora o redlining tivesse começado décadas antes, era uma prática realizada na luta pelos direitos civis dos anos 1960. Muitos advogados negros se infiltravam intencionalmente, eu diria, em bairros urbanos puramente brancos.

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