fbpx

Por Jailson de Souza e Silva – Fundador do Observatório de Favelas e Diretor geral do Instituto Maria e João Aleixo

A covid-19 já ceifou mais de 45.000  vidas no Rio de Janeiro, unidade federativa que detém o maior percentual de contaminados que morrem por causa da doença. Todas as autoridades fluminenses deveriam estar empenhadas em enfrentar essa tragédia. Todavia, no meio dela, recebemos a notícia das 25 pessoas assassinadas na favela do Jacarezinho. A indignação e a tristeza são imensas. E a preocupação maior ainda. De fato, como demonstrou a entrevista coletiva feita pela cúpula da Polícia Civil após o massacre, a lógica genocida que domina o estado não é obra de indivíduos perversos, apenas, mas de uma política de extermínio sobretudo da população negra.

Que se articula com a inação desses agentes diante do crescimento das milícias, que já dominam territórios onde reside  um terço da população carioca. Assim, não foi coincidência o encontro que antecedeu o massacre entre o genocida número um do país com o governador que hoje ocupa o posto. E o fato de ele ocorrer logo após a privatização da Cedae e do anúncio da possível candidatura de Marcelo Freixo a governador numa frente democrática que tem a defesa da República e o enfrentamento das milícias como prioridades.

Há longo tempo, os diferentes gestores que ocupam a cúpula da segurança pública têm priorizado o enfrentamento da facção Comando Vermelho em nome de coibir o comércio varejista de drogas nas favelas cariocas. Em todo esse período, com uma rara exceção durante a CPI de 2008, as milícias cresceram sem ser incomodadas. A partir de 2019, após a eleição de uma chapa diretamente apoiada por essas organizações criminosas, a estratégia de extermínio da população negra nas favelas por parte das forças de segurança foi estabelecida como nunca antes: foram 1.814 pessoas assassinadas apenas em 2019, um recorde absoluto. Em 2020, a decisão do STF de proibir as invasões indiscriminadas nas favelas ajudou, inicialmente, a diminuir essa barbárie. Todavia, a partir de janeiro de 2021, já na gestão de Cláudio Castro,  o número de assassinatos provocados pela polícia volta a disparar: foram 404 apenas no primeiro trimestre.

A mesma polícia que extermina jovens negros nas favelas é a que não descobriu os autores da morte de Marielle Franco mais de mil dias depois de sua perda, e que permitiu a Adriano Nóbrega, ligado à família Bolsonaro, chefe da milícia de Rio das Pedras e do grupo de pistoleiros de aluguel Escritório do Crime,  permanecer foragido por mais de um ano sem ser capturado vivo. Especialmente, é a mesma polícia que não consegue prender Wellington da Silva Braga – o Ecko, chefe da Liga da Justiça, principal grupo miliciano do Rio de Janeiro.

Ecko vem ampliando de forma extraordinária seu controle sobre territórios da cidade e de municípios vizinhas. De acordo com reportagem da revista Época, sua organização, antes restrita à zona oeste do Rio, está presente em 20 bairros da capital e outras seis cidades na Baixada Fluminense e na Costa Verde. Sucessor de seu irmão, Carlinhos Três Pontes, ele ampliou as suas atividades de modo tal que alterou o modelo de atuação das milícias cariocas para a identidade que esses grupos têm hoje, de narcomilícias. O termo deriva da associação estabelecida entre as milícias e setores das facções criminosas Terceiro Comando Puro e Amigos dos Amigos. Através dela, a venda de drogas ilícitas passou a ser autorizada nas áreas de milícias, que recebem um percentual por isso. Ao mesmo tempo, essas facções ampliam seu leque de atividades e passam a incorporar várias formas de extorsão nos territórios periféricos por elas controlados. Nesse contexto, a facção Comando Vermelho – a maior e mais antiga do país –, se torna o alvo central desses grupos e, não por acaso, das forças policiais.

Diante da evidente estratégia de governo de não coibir o crescimento das forças milicianas e de seguir com a política de extermínio nas favelas, especialmente as dominadas pelo Comando Vermelho ou líderes das outras facções que não se associaram às milícias, temos de nos preparar para outros massacres. Eles serão executados por agentes de Estado que perderam qualquer pudor ou senso de humanidade e se afirmam completamente acima das leis e das regras sociais. Suas ações se inserem em uma narrativa que mantém a polarização da sociedade carioca entre as “pessoas de bem” e aquelas que defendem os direitos humanos e o Estado democrático. Essas narrativas vão se enfrentar de forma direta em 2022, caso se confirme a candidatura do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL), presidente da CPI das Milícias de 2008, que tem buscado uma frente ampla com adversários históricos como Rodrigo Maia e Eduardo Paes.

O que se evidencia é que a eleição fluminense será a mais nacionalizada do país. Não apenas porque é a base eleitoral de Bolsonaro, mas porque aqui se disputa, como em nenhum outro território brasileiro, nosso rumo como nação democrática. Uma vitória do atual governador Cláudio Castro, aliado do presidente, irá coroar tudo que o bolsonarismo representa – o racismo institucional, a demofobia, o machismo, a LGBTfobia e, acima de tudo, a negação da institucionalidade democrática –, além da ampliação da presença miliciana em toda a região metropolitana e sua expansão ainda maior no interior do estado.

A criação do Comando Vermelho gerou, posteriormente, dezenas de outras facções similares em todo o país, bem como sua expansão para países fronteiriços. O mesmo processo tenderá a ocorrer com as milícias, com a multiplicação de sua lógica, estrutura e forma de ação para as regiões periféricas de outros estados. A melhor forma de inibir esse crescimento é que elas sejam enfrentadas e coibidas no território onde nasceram. Isso só será possível quando tivermos forças de segurança comprometidas com a democracia, com a garantia de uma política de segurança pública nas favelas e periferias que respeite os direitos fundamentais e esteja a serviço da vida e não do extermínio.

O massacre do Jacarezinho está no contexto da disputa eleitoral de 2022. Cabe ao Poder Judiciário e ao Ministério Público, com a pressão das organizações da sociedade civil, não permitirem que essa estratégia siga transformando as favelas em espaços de barbárie e destruição da vida.  Que esse genocídio seja interrompido já, sob pena de não termos mais os meios para viver minimamente em nossa cidade, em nosso estado, em nosso país. O dever é de todos nós, que ainda acreditamos na possibilidade de um Brasil democrático, justo, fraterno e com absoluto respeito à dignidade humana.

Share.

About Author

Leave A Reply