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A rotina de Zé Diabo, um dos últimos ferramenteiros do candomblé no país

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Faz 60 anos que Zé Diabo trabalha para os santos. Não sabe até quando vai levar essa vida, mas avisa: “Quando eu morrer, acaba. No dia que eu for, acabou”. O ferreiro José Adário dos Santos, 73, é um dos poucos produtores das ferramentas litúrgicas do candomblé e da umbanda.

Seu ateliê, encravado nos Arcos da Ladeira da Conceição da Praia, no centro histórico de Salvador, é referência para terreiros, filhos de santo, afoxés e simpatizantes do candomblé de todo o país. Em sua oficina, o ancião cria, sob encomenda, objetos sagrados para rituais de Exu, Ogum, Oxóssi, Oxumarê, Ossanha e Obaluaê, orixás que só podem ser cultuados com utensílios feitos de ferro.

As ferramentas ocupam papel central no candomblé. A cada orixá é designado um conjunto de fetiches que servem à formação de seu assentamento, uma espécie de altar que faz a mediação entre a divindade e uma pessoa — o Orum, o mundo espiritual, e o Aiyê, o mundo físico. Esses arranjos são utilizados na iniciação de filhos de santo e nos ritos de passagem. Por sua crença no candomblé, Zé Diabo produz os objetos sagrados na ordem seguida pelo xirê, o conjunto de cantigas que evocam cada santo nos rituais. “Quando você vai à casa do axé, começa por qual orixá? Exu. Então eu só entro por aí: começo fazendo Exu ou Ogum. O que tiver na encomenda do dia.

É o caminho”, relata o ferramenteiro.

Zé Diabo desce a Ladeira da Conceição, no centro histórico de Salvador - Rafael Martins/UOL - Rafael Martins/UOL

Zé Diabo desce a Ladeira da Conceição, no centro histórico de Salvador Imagem: Rafael Martins/UOL

Entre as peças, os agogôs podem custar R$ 30 ou R$ 60, a depender do tamanho. Ferramentas variam bastante. Um Ossanha pequeno (45 cm) custa R$ 150. Algumas galerias compram as mais elaboradas e as revendem por até R$ 4 mil. Perícia e destreza não faltam ao artífice e suas mãos calejadas. “O ferro não dá preocupação a quem sabe… [lidar com o material]”, diz ele. Zé começa o seu trabalho ao levar as barras de ferro cru, já serradas, à fornalha, segurando-as com uma tenaz. “Tem carvão, tem energia? O couro come”, brinca.

O passo seguinte é o aquecimento das barras sobre a brasa, às vezes aumentando a chama com o vento quente do fole. Depois, sobre uma bigorna, Zé desfere pancadas com seu martelo e, quando a forma desejada é obtida, encaminha o material para o resfriamento, que pode ser espontâneo, no chão da oficina, ou pela imersão numa bacia com água.

Neste processo, Ogum, o orixá do ferro, do artesanato e da tecnologia, é ajudado por Xangô (fogo), Iansã (vento), Oxum (água) e Exu (transformação). A última etapa é a montagem de cada ferramenta, feita com alguns ajustes (serragem, cortes e lixamento), encaixes e, por fim, a soldagem. A peça só se torna um objeto litúrgico depois de lavada com as folhas sagradas do candomblé, processo feito pelo comprador. “Quando sai daqui é ferro, com a energia de Ogum. Quando chega à casa do axé para ser lavado e assentado, já muda, fica diferente. Só é ferro quando tá aqui.”

Zé Diabo ergue uma ferramenta para Exu, objeto usado na liturgia do candomblé - Rafael Martins/UOL - Rafael Martins/UOL

Zé Diabo ergue uma ferramenta para Exu, objeto usado na liturgia do candomblé Imagem: Rafael Martins/UOL 

Quando o processo fica lento, ele troca as marteladas em barras de ferro ardente e as olhadinhas em esboços rudimentares por períodos de descanso que podem incluir goles de cerveja no Bar de Evandro e Ana, num arco vizinho, e tragos num charuto, para que Exu e Ogum deixem o seu “ori bom” e lhe “abram a cabeça e os caminhos”. Na oficina Nação José, o tempo é comandado pelos orixás.

Odu de Ogum

Se as demandas diárias o conectam ao seu ori (juízo e intuição), antes de tudo vem o odu: o caminho da vida. E o de José Adário e de sua família é de Ogum. Zé Diabo nasceu em Salvador, mas lembra que seu povo vem de Cachoeira, cidade do Recôncavo Baiano que recebeu milhares de africanos durante séculos de escravidão no Brasil. Seus antepassados fazem parte de uma dinastia sacerdotal. Zé é pai de santo, seguindo os passos do bisavô, dos avôs e de seus genitores, e observa a tradição continuar com uma de suas 14 crias, em preparação para ser ialorixá.

Trabalho de Zé Diabo na produção de ferramentas para o axé, em Salvador - Rafael Martins/UOL - Rafael Martins/UOL

Trabalho de Zé Diabo na forja, criando a base para um Ossanha Imagem: Rafael Martins/UOL. 

O ferramenteiro carrega em seu pescoço um fio de contas azul-escuro, que pode ser visto até parte do tórax. Seria filho de Ogum, então? Pura arapuca: as contas brancas que, juntamente ao azul, protegem os filhos de Oxalufã, como Zé Diabo, ficam escondidas por baixo das vestes do ancião. É que cada pessoa tem três orixás, além do odu, o caminho da vida definido pelo jogo de ifá (búzios). “Toda a minha família é Ogum. Sem ele eu não sou nada”, explica José Adário.

Ancestrais de Zé Diabo tiveram profissões “de Ogum”, mas só Zé se tornou ferreiro. “Ninguém correu pro lado do ferro. Ficou pra mim e foi bom. O que tocar, eu danço”, diz. O artesão, porém, só pode tirar o ferro para bailar: seu padrinho não lhe deu a habilidade de elaborar ferramentas com outros metais. Seu dom é a sabedoria para lidar com o ferro e seus derivados, numa sinergia que Zé Diabo chama de “jabá de Ogum”, espécie de sensibilidade técnica necessária para entender os axés envolvidos no manejo do mineral e na ciência de alternar movimentos brutos e gestos de leveza — o que reproduz seu caráter ora rabugento, ora acolhedor.

Zé Diabo, 73, artífice da Ladeira da Conceição, em Salvador, trabalha na produção de ferramentas para o axé - Rafael Martins/UOL - Rafael Martins/UOL

Oficina do Diabo Ogum fez com que Zé Diabo percorresse uma estrada de prestígio. Um curso bem diferente da caminhada da vergonha a que o pequeno José era submetido aos 11 anos, quando entrava no prédio do Mercado Modelo carregando estatuetas de Exus sob os gritos de “lá vem o diabo”! A situação era tão corriqueira que consagrou o apelido que lhe acompanharia pelo resto da vida.

Zé chegou à Ladeira da Conceição da Praia em 1958, por indicação de um tio que era engraxate no mercado e conhecia o trabalho do ferramenteiro Maximiano Prates, fornecedor das casas religiosas do local. Para que o sobrinho seguisse o odu da família, o carregou consigo ao centro da cidade para as primeiras aulas.

Seu mestre não era feito no candomblé, mas, de acordo com Zé Diabo, herdou a sabedoria ancestral da Ladeira de Nanã e dos terreiros do Engenho Velho de Brotas, onde morava. Maximiano submeteu o discípulo a um processo de aprendizagem similar ao da iniciação no candomblé: com muita observação, alguma prática e poucas perguntas. Os segredos da arte tinham de ser desvendados pelo olhar do aprendiz.

Depois da morte de Maximiano, na década de 1970, Zé Diabo migrou do arco 18 para o 26, onde trabalha até hoje, e herdou fregueses de seu mentor, como o mestre de capoeira, comerciante e músico Camafeu de Oxóssi. Depois, angariou novos clientes: o afoxé Filhos de Gandhy (para o qual fabrica agogôs há mais de quatro décadas), o escritor Jorge Amado (1912-2001), o artista plástico Carybé (1911-1997), o fotógrafo e babalaô Pierre Verger (1902-1996), o músico Carlinhos Brown e Pai Air de Oxaguiã, do Terreiro Pilão de Prata. Suas obras estão em galerias de arte e museus como o Fowler, nos Estados Unidos; o da Cultura Nacional Afro-Brasileira, em Salvador; e o Afro Brasil, em São Paulo.

A ferramenta de Ogum, fabricada por Zé Diabo, em Salvador - Rafael Martins/UOL - Rafael Martins/UOL

A ferramenta de Ogum, fabricada por Zé Diabo, em Salvador Imagem: Rafael Martins/UOL.

A ferramentaria artística, patrimônio cultural produzido na oficina Nação José, porém, pode estar com seus dias contados. De um lado, já existe uma indústria que produz ferramentas genéricas; de outro, alguns terreiros com maior poder aquisitivo contam com filhos de santo (em geral, ogãs) especializados na feitura de peças exclusivamente para os assentamentos da casa. Funcionava assim com outros famosos ferramenteiros já falecidos, como Mestre Didi, do Ilê Axé Opó Afonjá, e Vadinho Boca de Ferramenta, do Gantois. 

Diante da falta de interesse das novas gerações, Zé Diabo quase desistiu de transmitir o seu conhecimento. “Nem meu sangue quer aprender. Eles me dizem: ‘eu vou me acabar no ferro, ficar com minha mão lascada e queimada?’ Querem é estudar, porque com a caneta podem ganhar dinheiro. Eu vou insistir?”, lamenta. Seu filho José, de 53 anos, é o único auxiliar da oficina, mas atua como faz-tudo e não pretende seguir carreira no ramo das ferragens.
As poucas tentativas de ensinar a alguém de fora da família também foram vãs. Zé se recorda especialmente de um candidato que saiu de São Paulo só para aprender o ofício. “Ele queria ser mais sabido do que eu. Eu dizia que era para cortar e fazer de um jeito, ele vinha e dizia que não. Tava querendo se espalhar. Aí eu mandei não vir mais, não, já que ele tava muito inteligente.”
Sem encontrar um sucessor, o velho Zé Diabo vai dando suas marteladas no ferro, ciente de sua condição de derradeiro mestre de um ofício centenário, praticamente circunscrito aos Arcos da Conceição da Praia, uma das três ladeiras mais antigas de Salvador.
A tensão entre tradição e modernidade encontra eco na ladeira e em seus ocupantes, que vão sobrevivendo teimosamente às tecnologias contemporâneas e a ameaças de gentrificação do centro antigo, alvo da especulação imobiliária. Apesar de o Elevador Lacerda monopolizar os deslocamentos entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa, Conceição da Praia ainda tem tráfego de carros e pedestres. Ainda une pontos. Assim como Zé Diabo, que continua a transformar ferro em “outra coisa”, ajudando a ligar o mundano Aiyê ao divino Orum.

Nelson Oliveira e Rafael Martins – Colaboração para o TAB, de Salvador

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