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Tebas, o arquiteto preto que reformou a Catedral da Sé, ganha estatua na cidade de SP

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Joaquim Pinto de Oliveira nasceu escravizado em 1721, mas após sua alforria, realizou importantes obras como arquiteto no centro da cidade

A estátua é de autoria de Lumumba Afroindígena

A estátua é de autoria de Lumumba Afroindígena – Divulgação

No dia 20 de novembro, uma nova estátua chegou à praça Clóvis Bevilácqua, localizada no centro de São Paulo. O monumento homenageia o arquiteto negro Joaquim Pinto de Oliveira, mais conhecido como Tebas, que realizou a reforma da antiga Catedral da Sé, demolida em 1911.

A obra foi construída pelo artista Lumumba Afroindígena com participação da arquiteta Francine Moreira e é feita à base de ferro, inox e barra de concreto, além de que possui altura de 3,6 metros.

“É uma obra feita por mãos pretas, cabeças pretas, homenageando uma personalidade preta. Não vejo como não ser afrofuturista, ela abre um caminho para um novo tempo”, diz Lumumba, segundo a Casa Vogue. “Temos um equipe de 90% pessoas pretas envolvidas”.

Sobre a estética da estátua, o artista declarou: “Eu criei aquela máscara com um transferidor na frente, sobre os olhos, que simboliza, além da arquitetura, o tempo. Levou 200 anos para que fosse reconhecido”, explica o Lumumba, que seguiu uma abordagem mais conceitual devido à ausência de referências quanto à real aparência de Tebas.

DE ESCRAVIZADO A ARQUITETO EM SÃO PAULO: A EMOCIONANTE HISTÓRIA DE TEBAS

Tebas esteve por trás dos ornamentos nas fachadas de diversas igrejas que hoje são pontos turísticos da capital

Ilustração representando Tebas

Ilustração representando Tebas – Wikimedia Commons

Joaquim Pinto de Oliveira foi de uma geração de escravos que nasceu no Brasil, portanto, sem liberdade. Saiu do útero para entrar no sistema escravocrata, sem a chance de primeiro experimentar uma vida onde podia decidir o que queria fazer de si, ou mesmo descobrir quem era.

Apesar de já ter começado nesse cenário triste, Joaquim – ou Tebas –, como costumava ser chamado – foi capaz de prosperar mesmo com escolhas sendo feitas por ele, e acabou deixando um legado arquitetônico, contribuindo para construções que hoje são famosos pontos turísticos na cidade de São Paulo.

A descoberta de um talento

Tebas nasceu na vila de Santos, litoral paulista, e em algum ponto de sua vida foi levado para o centro, onde a construção civil estava em processo de ascensão. O português Bento de Oliveira Lima era um mestre de obras em busca por oportunidades na região, e, por extensão, era também com edificações que o escravizado trabalhava.

Inclusive, uma das partes fundamentais do seu trabalho era talhar as pedras brutas em blocos de construção, o que era justamente parte do movimento de modernização da cidade de São Paulo, que naquele ponto tinha seus prédios constituídos principalmente por barro, através da antiga técnica de taipa, que embora fosse eficiente também trouxesse limitações arquitetônicas.

De forma inesperada, os dois logo descobriram que Joaquim tinha um talento incomum para o ofício – tanto, que o escravizado teria sido reconhecido ainda em vida, apesar do preconceito da sociedade da época.

Legado

Tebas trabalhou principalmente para ordens religiosas: beneditinos, franciscanos, carmelitas e católicos. Até por isso, suas contribuições costumam ser ligadas à Igrejas. Entre as mais famosas, está a construção da torre da antiga Igreja Matriz da Sé, a ornamentação das fachadas das igrejas do Mosteiro de São Bento e do Seráfico São Francisco.

“Na época, quem tinha recursos eram as corporações religiosas. Por isso, ele atuou nos três vértices do chamado triângulo histórico formado pelos conventos de São Bento, do Carmo e de São Francisco”, explicou em entrevista à Casa Vogue, o jornalista Abilio Ferreira, que organizou o livro “Tebas: um negro arquiteto na São Paulo escravocrata”

Alforria 

Joaquim conseguiu sua carta de alforria por volta dos 58 anos de idade. Inclusive, existe um samba-enredo de 1974, composto pelo ativista negro Geraldo Filme, que se refere ao evento, dizendo: “Tebas, negro escravo. Profissão: Alvenaria. Construiu a velha Sé em troca da carta de alforria”.

Fotografia mostrando antiga catedral da Sé / Crédito: Wikimedia Commons 

Ele permaneceu na profissão após sua liberdade, que em algumas versões da história teria sido comprada (como conta a música), e em outras foi possível após um processo judicial contra a esposa de Beto de Oliveira, que tinha então falecido.

Tebas continuou ativo na alvenaria estrutural até por volta dos 90 anos de idade, quando uma gangrena na perna, provavelmente decorrente de um acidente de trabalho, acabou levando-o a morte.

Reconhecimento 

Joaquim Pinto de Oliveira, embora tenha feito parte da construção de Igrejas magníficas, teve sua profissão reconhecida apenas 200 anos após sua morte, no ano de 2018, pelo Sindicato dos Arquitetos do Estado de São Paulo (Sasp), que elaborou uma homenagem para o santista. O ato foi realizado com base em diversos documentos oficiais da época que Tebas viveu, confirmando seus feitos arquitetônicos.

Fotografia da Igreja da Ordem Terceira do Carmo / Crédito: Wikimedia Commons

Já em setembro de 2020,  o prefeito Bruno Covas, da cidade de São Paulo, anunciou que o escravo liberto estava para ganhar uma estátua em sua homenagem, que seria colocada no centro da cidade, dando assim mais destaque à influência até então invisível de suas mãos nas construções da capital.

Por AH – Aventuras na Historia

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