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Chamamento ao campo progressista e antirracista para ampliar o debate, sobre, na “moral”?

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Chamamento ao campo progressista e antirracista para ampliar o debate, sobre, na “moral”?

Dado momento histórico de uma estreita, porém de longa trajetória de lutas por sobrevivência, resistência, resiliências e defesa de direitos humanos na luta antirracista, construímos uma linha programática onde a motivação sempre foi “Não existe dialética na encruzilhada”. E a partir desta realidade marginal suburbana e privada de privilégios, posso dizer que esta pauta chamada “moral”, que deste lado se trata do conjunto de valores e de noções do que é “certo ou errado”, “proibido e permitido”, dentro de uma determinada comunidade ou de uma tradição.

A práxis positiva destes signos morais é importante para que possamos viver na plenitude a reconstrução de novos e renovados “Palmares”, fortalecendo cada vez mais as alianças que garantam a solidariedade social e a luta antirracista focada, intransigente, e indissociável da radicalização da democracia. Podemos já de pronto analisar nosso contexto de caos, e de lutas para o atendimento de vossas subjetividades, mesmo no discurso de unidade, coletividade, sororidade, entres outros jargões, inclusive os insustentáveis.

Desta forma, as mais diferentes expressões tradicionais e políticas possuem diferentes sistemas morais para organização da vida em sociedade. Prova disso está nas diferenças existentes entre os aspectos das várias leituras de mundo inseridas em um mesmo contexto de privações de diretos, destes e destas que versam à beira do “reacionarismo”. Busco sempre ter em mente que moral, por ser fruto da consciência coletiva de uma determinada sociedade e cultura, pode variar através dos tempos e pela construção histórica mediada por contradições e construção de narrativas que visam em suma promover conflitos existenciais já na assinatura imposta de contratos sociais mediados pelo capitalismo.

Ao partir da ideia que a moral é construída culturalmente, algumas “visões de mundo” ganham status de verdade entre os grupos sociais e, por isso, muitas vezes são “naturalizadas”. Essa naturalização de uma visão que se auto fomenta sobretudo no aspecto cultural, que busca a passos largos sua hegemonia, é o que dificulta conseguirmos distinguir entre juízo de fato, aqui a análise imparcial e de valor fruto da subjetividade, o que pode ser uma armadilha em um terreno amplo para o desenvolvimento de “pré-conceitos” em relação ao que é estranho, diferente e sem padrão.

Dessa forma, uma preocupação constante no debate sobre ética e moral se dá no sentido de evitar a violações em todas as suas possíveis expressões (física, psíquica e epistemológica), bem como o caos social. Os valores éticos se oferecem, portanto, como expressão e garantia de nossa condição de seres humanos, sujeitos racionais, agentes livres, proibindo moralmente a violência e favorecendo a coesão social, isto é, a “ligação”, o aquilombamento, entre as pessoas em comunidade.

Logo, a noção de violação, discriminação e ampliação dos preconceitos variam, tanto dos valores como da ideia de virtude, fundamentais à vida ética e evitam a violência, o ato imoral ou antiético. A noção de bem e mal ou do bom e do mau é fundamental para que calculemos uma forma de fugir do sofrimento, da dor, alcançando a felicidade de forma coletivizada e engajando setores a ampliar esta reflexão. Contudo, é importante lembrar que fins éticos requerem processos éticos, o que nos faz deduzir que a famosa expressão “os fins justificam os meios” não é válida. Se em nossos signos éticos e morais consideramos o racismo como algo imoral, este seria um meio injustificável para se alcançar qualquer coisa, ainda que isso fosse feito em nome de algum valor moral. A simples existência da moral não significa a presença explícita de uma ética, entendida como filosofia moral, isto é, uma reflexão que discuta, problematize e interprete o significado dos valores morais. Ao contrário disso, as sociedades tendem a naturalizar seus valores morais ao longo das gerações, permitindo que a aceitação generalizada do capitalismo, racismo, entre outros, sejam potencializadas e naturalizadas.

Estamos colhendo os frutos da Carta ao Povo Brasileiro”,  o diálogo não é sobre o abandono da pauta econômica, mas sobre a necessária ruptura com a falta da conscientização das massas e dos povos. A falta de reconhecimento do que foi um erro no qual o campo progressista (e leia-se esquerda) insistiu por muito tempo, não estimular o debate sobre valores éticos e morais como estratégias de humanização das relações e afetividades, debate a ser enfrentado na arena moral, não se abstendo das contradições históricas, inclusive a de varrer para debaixo dos tapetes este divisor de águas para os avanços necessários no próximo ciclo, suas metas e objetivos.

Qual é a lição número um da cartilha lida de 2002 a 2020? A lição número um é , “vamos falar de economia”, “vamos lembrar de quando o povo era mais feliz, que se tinha mais dinheiro e podia comprar frango e geladeira…”. Todo o debate formativo, foi varrido para debaixo do tapete e uma grande chocadeira de ovos de serpente esta, ainda, em plena operação. Não foi, pela ampla maioria, assumido e defendido, muito menos praticado pelo debate como uma necessidade urgente. Ao fim e ao cabo para potencializar esta encruzilhada moral urge a necessidade de amplificar e demandar muita coragem e coerência de se assumir o que de fato se defende.

Nesta reflexão podemos apontar tecnologias sociais que colocam na ordem do dia esta concepção de desenvolvimento de narrativas afrocentradas, pluripartidárias e aglutinadora de potencialidades que ampara saberes e fazeres no desenvolvimento de comunidades justas, solidárias e educadoras, a Bancada Preta estimula na práxis enraizada em princípios que remontam na contemporaneidade a filosofia Ubuntu como farol.

Para a Bancada Preta o esperançar, a práxis cotidiana e revolucionária, a solidariedade, a coletividade, o afrocentrismo, o quilombismo são os sentimentos que ainda nos move. Mas em muitos aspectos nos é roubado. Sonhar, lutar e acreditar que podemos construir algo melhor para nós e para as próximas gerações a cada dia sofre um petardo quando a práxis revolucionária é testada no coletivo.

Sou descendente de um povo que, passa geração entra geração, tem sofrido e instalado no campo da resistência há séculos, lutamos até hoje contra os descendentes de sequestradores, estupradores, exploradores, invasores que querem tomar nosso “esperançar”. Lutamos contra a escravização dos nossos corpos e mentes por mais de quatros séculos e neste processo construímos alternativas de sociabilidade.

A Bancada Preta é uma experiência concreta, que demonstra na prática que é possível construir uma outra sociedade mais humana, mais justa, solidária, educadora e ambientalmente viável e autossustentável. É o resultado da ousadia, da perspicácia de um povo que não se curva diante das dificuldades e das barreiras que se apresentam.

Os desafios e as dificuldades não acabam com o acesso a espaços de decisão e poder, pelo contrário, ganham novos contornos. A luta passa a ser pela sobrevivência, pelas tentativas de integração de planos, projetos e planejamento no campo social, econômico, cultural e pelo direito de existir, e psicologicamente.

Vivemos diversos fins do mundo, diversas pandemias. É a bala no peito de um igual, é o linchamento em supermercados, o abandono que garante a força do dia-sim-dia-não na colheita, no semáforo, no transporte público privado super lotado, nas ruas; é a rotina sucessiva de violência nas guerras armadas nos territórios, quebradas, esquinas, becos e sistemas.

é apenas mais uma das catástrofes que estamos há viver neste século, consequência de tragédias como a invasão de África e o sequestro de seus filhos e filhas, o recrudescimento do capitalismo e seus tentáculos, o racismo, a religião cristã, a heteronormatividade, Infelizmente, muitos e muitas de nós serão arrastados pela lógica do “farinha pouca meu pirão primeiro” e isso não se deve a esta ou aquela conjuntura em particular, se deve à linha histórica. Cada dia que o homem branco e a mulher branca, capitalista, ocidental, constrói o seu mundo, nós cavamos mais uma cova.

Não é menos verdade que o extermínio das juventudes pretas, que hoje alcançam mais de 30 mil mortos por ano, mate menos que o vírus, ou que aliás qualquer um dos adiamentos do fim do mundo, capitalista, branco, neocolonial, tenha significado para nós de alguma melhora.

Após ter seu mundo restituído, a “demoniocracia” neocolonial não vacila em apontar as armas para o corpo preto, favelado, pobre e periférico, uma massa que se deve conter, um inimigo que se deve exterminar. No fundo é um cálculo básico: 90% da população mundial sustenta 1% da população, e juntos consumimos o que equivaleria a 150% desta mesma população.

Sempre pensamos em como seria o fim do racismo não a partir de uma transição, mas de uma ruptura com o sistema de opressão e exploração, imaginamos um rompimento que nunca chega. Estamos sempre nos gabando de nossos aspectos tecnológicos, das tecnologias que desenvolvemos e colocamos a serviço da nação e do branco, de que adianta?

Toda grande invenção é sempre usada para o mesmo fim: guerra, manipulação e lucro. Um caminho traçado há muito tempo, percorrido todos os dias pelas pessoas que se levantam das suas camas infelizes, e que aceitam a submissão do pão. Difícil falar sobre isso num país que ainda vive o fantasma da fome, da sede e do frio. E quando não passarmos mais medos, fome, sede e frio? O que iremos fazer? Morrer então de comer e beber, olhar para os e as nossas iguais com recorte de classe e com isso apartar? No final e contudo será os valores morais e éticos construídos que darão a resposta.

Nunca pensei que conseguiriam matar em minutos um rio de milhões de anos em tão pouco tempo. Para mim já estava super denegrido, somos convidados a todo momento para a sepultura. O rio, água, fonte da vida, contaminada com mercúrio, sangue e ferro, segue a mesma metodologia milenar. O racismo ambiental. Aquela imagem da barragem se rompendo não sai da minha cabeça, eu sonhei. Sonhei com a América Latina, esse espaço afroindígena, como um grande buraco, assim como desejaram fazer desde que chegaram aqui. Ouro, prata, ferro, nióbio, metais raros, quem disse?

O fim do esperançar se alarga, e, não será breve. A transformação não será breve. Tudo será lento como o tempo da terra e, mais ainda, como o tempo do entendimento. Porque no início éramos um só continente, no início éramos Pangeia. Não consigo esquecer dessa imagem tão bonita. O contato de dois hemisférios, uma fase tão nova, ainda magoada, ainda ferida dessa separação.

É tempo de lembrar. Quando o regime colonial abandonou o Brasil na figura da branquitude colonizadora e Portugal estava entregue à própria sorte, a estrela preta de Zumbi brilhava mostrando aos nossos a direção. Um tipo de consciência que precisamos despontar agora para nos confrontarmos com a destruição, uma consciência aquilombante. É no quilombo, hoje Bancada Preta que nós, população preta nas Américas, ergueremos as paredes de ideias que possam abrigar nossas potências criativas, coletivas e coletivizadas de vida, tão persistente quanto a saga pelo nosso genocídio, a máquina de moer carne preta que chamamos de modernidade. Para aquilombar em tempos de fim de mundo é preciso antes criar o quilombo dentro de si. Exercitar o corpo e a mente para as novas ideias.

Na atualidade atravessamos um momento de profundas dificuldades, ausência de trabalho, emprego e poucas alternativas de geração de renda. Quem consegue vender sua mão de obra precisa se deslocar por longas horas no transporte coletivo privado/público e muitas vezes não tem com quem deixar filhas e filhos pela ausência de espaços de educação infantil. Nos territórios onde moramos falta muita coisa, a escola é precária, falta remédio no posto, não tem espaços culturais e de lazer, nos sentimos inseguros, inclusive com a presença daqueles que deveriam nos proteger.

O cotidiano massacrante nos faz parecer, e muitas vezes, realmente fracos, impotentes, incapazes de mudar os rumos e as rotas destas já tão desoladas vidas. Isso traz a necessidade de sempre buscar um conforto, um acalanto, algo que nos alimente de esperançar para seguir em jornada. Essa busca não é individual, mas coletiva. São nesses momentos difíceis que mais buscamos resgatar a força dos antepassados.

A Bancada Preta, sobretudo, é se nutrir da ancestralidade, compreender as tecnologias e métodos que construímos ao longo dos séculos, que nos permitiu chegar até aqui. Esse pertencimento e essa identidade são fundamentais para que percebamos que não estamos sozinhos e que precisamos estar irmanados, agindo coletivamente e estrategicamente, porém, há “porem”, é por ti que estamos aqui, de novo escrevendo o já exaustivamente escrito por tantas e tantos antes de nós.

A Bancada Preta pretende estabelecer o autocuidado, construir espaços coletivos de afeto, de acolhimento, de escuta, de sociabilidade, de sentidos coletivos, de fortalecimento de laços, memórias e constituição de identidades.

A Bancada Preta é se organizar, constituir espaços que possamos refletir e agir sobre a nossa realidade. Questionar o que está posto que nos oprime e construir demandas, ações concretas e nos colocar em movimento para mudar nossas realidades.

A Bancada Preta é compreender a nossa história, nossas origens, nossa cultura, resgatar nossas memórias e lembrar o passado para entender o presente e construir o futuro. Isso nos faz perceber o quanto a ação cultural e ação política caminham juntas e formam uma tecnologia poderosa de organização e intervenção social valores éticos e morais se acarinham no dia a dia da construção em comunidade.

A Bancada Preta é também o fazer, se comunicar, organizar conceitos, construir fundamentos, narrativas e estabelecer diálogo com o conjunto da sociedade. Além de descolonizar corpos, mentes e sistemas.

A Bancada Preta é aquilombamento tático e estratégico, é uma necessidade histórica, é um chamado, a reconexão com nossa ancestralidade para atuar no presente, construir o esperançar, força e o sonho de deixar um futuro melhor!

Na moral e com os nossos iguais. E aí, na moral, vamos?

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