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Narciso e o lago podre do capitalismo

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O capitalismo conseguiu a façanha, nada natural, de fazer com que Narciso impregnasse vida, corpo e alma das pessoas. O que ou quem era e é Narciso apresentado pela mitologia precisa ser graciosamente recuperado. E, nesse caso, não importa muito a origem, mas o seu significado e a sua influência na organização da vida dos seres humanos. Se a origem do mito é muito antiga, compartilhada antes pelos indo-europeus ou em lendas do povo Zulu, agora não é mais importante. Vamos ficar com o mito grego de Narciso e a imagem na água, nos lagos, nos rios, onde o movimento das águas mudam a forma mais só se enxerga beleza. A contemplação de si por si mesmo é o fundamental nessa composição. E se Narciso acha feio o que não é espelho, é tudo isso, mais profundo e abrangente. Afinal, não se trata apenas do reflexo da imagem, mas de sua própria idolatração através da autoimagem refletida.

O lago podre do capitalismo aposta na personificação de arquétipos sob a égide do individualismo, impulsionando os Narcisos que habitam em nós para o aprofundamento da estética da guerra. Afinal, nada melhor para os interesses imediatos do lucro e para se “ganhar a qualquer custo” do que a guerra. “Nunca perder” é uma ilusão que já apareceu em tempos passados como a “lei de Gerson”, apresentada para as pessoas nos seguintes termos cunhados pelo professor e psicanalista pernambucano Jurandir Freire: “o desejo que grande parte dos brasileiros tem de levar vantagem em tudo”. Lamentavelmente não são só as pessoas brasileiras, mas é o que predomina em todo o mundo e na América Latina.

O reflexo sombrio do narcisismo no lago podre do capitalismo produz a pulsão destrutiva da potência humana. A potência criativa – o opus da vida – fica impedida e desprezada para que o lucro se sobreponha e o controle das coisas transforme as pessoas em objeto. Melhor ainda se a grande maioria das pessoas colaboram com a objetificação e se apresentam como mercadoria, em imagens, ganhos e gastos, a desfilar sua fixação por si em detrimento da dolorosa nudez da objetividade e do conhecimento.

O trabalho não tem sido historicamente um meio de produção criativa. No capitalismo, o trabalho, este no qual vivemos, é um emprego para sustentar a vida. Quando falamos em trabalho automaticamente aparece, para a grande maioria das pessoas, como o meio de sustento, o modo como mantenho a mim e aos próximos com dinheiro. O grande ganho e objetivo é a mercadoria dinheiro, que pode comprar as bases para a sobrevivência e, para tanto, tenho que ser o melhor, pois é necessário disputar todas as vagas, todas as possibilidades e cultuar o primeiro para mim. Assim se garante que se tenha, mesmo que os iguais a mim não tenham. Mas com os ventos e ares do narcisismo, nutrido pela ideologia do individualismo, cada pessoa tem que se garantir e o outro já não é mais problema de cada uma dessas pessoas.

Nas sociedades mercantis capitalistas, o culto ao indivíduo e a pulsão narcisista se aprofundam como uma necessidade, pois esse sistema pressupõe, como território ideológico, indivíduos livres, autônomos, independentes e proprietários de mercadorias, sendo uma delas a força de trabalho. Sem a categoria central do indivíduo e sua fetichização, os contratos no mercado não se realizam plenamente. O que predomina transforma tudo em mercado e no mercado é preciso ter para adquirir as coisas. A posse, sensação advinda da propriedade, traz o sentimento de vencedor, de poder, de supremacia, face às hierarquias que a propriedade realiza culturalmente. E cria os maiores obstáculos para o coletivo. Assim, faz todo o sentido que individualismo, egoísmo, posse e acumulação se organizem tão bem na figura da energia do “herói” e entorpeçam a alma para ações vaidosas, autocentradas e insensíveis ao máximo.

Apresentar a alternativa a essa ideologia que se apodera do consciente e desses sentimentos que fazem o inconsciente se sobrepor é fundamental. Para isso é necessário apostar na mais ampla unidade na diversidade. Os iguais, que vendem nesse mundo a força de trabalho para sobreviver, são diferentes e singulares entre si. E justamente nessa diferença que borda a igualdade social fundamental há os fluidos de potência para a construção da inteligência coletiva. E é nessa inteligência coletiva, flambada de solidariedade e enriquecida com a dialética das transformações, que será fundida a estética, a ética e a cultura. Superar todos os efeitos morais, construir a inteligência coletiva e avançar para um mundo em que a nossa relação com a natureza e entre nós cresça, floresça e se aprofunde em potência criativa – e não destrutiva – no processo criativo de transformação são desafios de hoje.

Transformar o Narciso que nos habita em aliado, vendo-nos, a todos nós, na mesma e única imagem refletida, ousando encarar frente a frente a nudez de nossa natureza ilimitada, de nossa vacuidade e, sobretudo, do movimento dialético das águas por traz da ilusão fetichizada da permanência das coisas. Está no movimento das águas, dos lagos e dos rios o sinal de que nos vemos, a todos, no mesmo mar.

 

Sobre o Autor

Eduardo Alves

Nasceu na periferia da cidade do Rio de Janeiro e desde os 14 anos atua em ações democráticas. Fez parte da Teologia da Libertação e atua com formação política desde os 18 anos, em partidos de esquerda, movimentos sociais e organizações da sociedade civil. Cursou Ciências Econômicas na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi da direção do Observatório de Favelas, coordenador da ESPOCC – Escola Popular de Comunicação Crítica – e colaborador do IMJA-Instituto Maria e João Aleixo – desde a sua fundação. Nos dias atuais é colaborador e organizador do IPAD e identifica-se como intelectual orgânico da periferia.

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