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Poema – Mãe o Começo, Meio e sem Fim. Vivas às Dona Angelicas

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Meu nome é Eduardo, vulgo Bobcontroversista e vou me expressar, minhas Historias começam em 1984 e neste primeiro momento não são de se alegrar, pois no começo foi uma vitória, até as violências começarem a me afetar, ou melhor, dizendo tentar-me desalforriar.

Neste ano tive a oportunidade de em uma das melhores escolas de São Paulo ingressar, só que logo na sequência o destino, mais uma peça conseguiu me pregar, meu pai, minha referencia, deste plano terreno decidiu se mandar, teve um derrame cerebral fulminante, nos deixou em um pequeno, porem eterno instante e em um momento especial da minha vida ate ali curta, me fez quase desistir da luta, mas existia naquele momento uma mulher, mãe, guerreira e companheira que em meu auxilio veio para encarar juntos esta luta e bateu de frente com os opressores sem titubear na labuta, batalha dolorida e injusta, e de forma combativa, foi firme e me manteve na ativa, mesmo naquele momento de profunda dor, me mostrou que passaríamos pelos espinhos para alcançarmos a flor, e que muitas vezes íamos nos machucar, porem, nesse seu desenrolar, mais um gladiador iria formar.

O feitiço voltado contra o feiticeiro, na escola era visto como um forasteiro, mais um negrinho de terreiro, visto com indiferença pela cor ser diferente, os olhares eram ardentes que chegavam a machucar, porem estávamos firmes na proposta de continuar e superar, ali percebi que não estava sozinho e que juntos mais esta batalha iríamos ousar encarar.

Logo na minha entrada nesta, que deveria ser um espaço de educação e desenvolvimento cidadão, percebi e senti os olhares de reprovação, para um preto, pobre e órfão ali no clube/escola da elite da nação, o preconceito, o racismo e a discriminação, eram presentes e latentes na vida daquele ate então adolescente.

Com o passar do tempo as varias violências vividas fez com que algumas estratégias fossem definidas, no intuito de minimizar estas que causavam profundas feridas, na falta de conhecimento utilizei a violência como forma de enfrentamento, deixando de lado a dialogicidade, violência gerando violência por falta de entendimento e argumento, ações de um grupo extremamente racista me fez junto com a minha mãe, companheira e parceira a superar aquelas barbáries doloridas e realistas, que até hoje se fazem em abertas feridas, na sala de aula cada dia era um tormento, não me enxergava nos ensinamentos, do dito “quadro negro”, minha história era contada e permeada pelo sofrimentos, linchamentos, chicoteamentos, a imagem de escravo gerava descontentamento e a professora não mostrava nenhum engajamento, em minimizar aquele real e profundo segregamento, digo sangramento, no imaginário das outras crianças era visto e tratado como da história mais um incremento, mais um rebento que na roda dos excluídos teve seu principal momento.

Na hora do intervalo que as relações se estreitavam, não tínhamos a merenda cedida pelo Estado, era tudo privatizado e elitizado, na época a moeda corrente era o cruzado, e quando encostava o umbigo na lanchonete, as moedas não compravam nem um chiclete, me via mais uma vez em xeque, mas não o mate, sempre descolada um sanduíche e as vezes até um chocolate, porem para os moleques era motivo de piada e sempre me posicionava, mas a revolta sempre me rondava, gostaria muito de finalizar aquela jornada, que viria a ser ainda mais adornada, de testes e avaliações, porem sempre tirava algumas lições, e acabavam superando e administrando minhas contradições.

Não demorei a reproduzir e até partir para físicas agressões, e assim gerava grandes problemas para minha mãe, a mesma era muito cobrada e de forma sistemática provocada, pois do clube era funcionaria, mais uma pessoa duplamente discriminada, por ser mulher, negra e mais uma simples operaria, mas de postura firme e revolucionaria, que na pratica lições para mim no dia a dia mostrava, por ser inspetora, tinha que manter a ordem e colocar limites nas hordas, de crianças e adolescentes que recebiam já em casa a idéia de serem superiores, que a formação vinha para serem doutores e futuros e prósperos opressores, a pura e continua reprodução, do sistema de exploração, aos quais seus pais e mães também passaram e eles naturalmente passarão.

Comecei então a participar e praticar diversas atividades e modalidades esportivas, e em cada uma dessas tinha que provar que era o melhor, me desdobrar para ser aceito como um ser humano nem pior nem “menor” e isto me trouxe mais problemas, pois com o destaque veio à cobrança do sistema, estar ocupando/disputando o espaço com o filho do boy, para muitos infelizmente dói e requer da minha parte uma devida penitencia, que ate hoje ainda corroí.

TI Amo mais que a mim mesmo.

Com o tempo já não convivia no espaço da mais árdua batalha, na época acontecia no clube festas da Musicalia, e eu aproveitava, no estacionamento externo os carros eu olhava, e desta forma recursos importantes eu captava, já era um flanelinha sem flanela, e me dava bem com os ensinamentos da favela, que ficava do outro lado da rua, no bairro da Armênia, a situação ficava mais amena, quando estava neste espaço, uma praça no bairro da Ponte Pequena, onde conseguia visualizar e entender as desigualdades e seu esquema, de um lado os descamisados e do outro, vários carros importados, percebi com fervor que a mesma tinha uma cor e uma etnia, e que a sua manutenção de nós dependia, de vez enquando sumiam uns toca-fitas, ai era a vez da polícia que adorava uma pancadaria, batia em todos que estavam em sua mira, não tinha grande, pequeno, nem coitado, o chicote estralava a doidado, só tinha uma diferença a do preto para o branco e do branco para o pardo.

Contudo consegui fazer alguns contatos, busquei o primeiro e formal emprego, Office boy nos escritórios do centro, um importante avanço, pois com o pequeno pagamento, poderia somar no sustento e minimizar os enfrentamentos, a escola não tinha mais atrativos, o sistema forjado e manipulado para tal, conseguiu mais uma vez excluir o menino, transformando em mais um marginal, não no pejorativo da palavra, porque do meu lado ainda estava minha fiel escudeira, Dona Angélica, mãe, amiga, e conselheira, negra de braços fortes e postura quilombola na desenvoltura, firme na rocha independente e sobrevivente, a saída do ciclo de formação intelectual, no espaço de educação formal, a entrada no mercado de trabalho foi a saída para dar um final, naqueles momentos de violência institucional, desigual e brutal.

Agradeço eternamente a participação desta mulher na minha vida, com suas palavras e colo amenizou muitas feridas, mãe, hoje, por você contrario as estatísticas, de um sistema injusto e racista, continuo preto, periférico e de conjuntura um analista, vivo, saudável e instigante, na base problematizador e militante, não ti esqueço se quer um instante, territorialmente estou longe, mas nas ações, comportamento e trabalhos você é meu principal caminho de aprendiz e ensinante.

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